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CAPÍTULO III - PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

 

3.1. A síntese da concepção de paisagem

A partir da década de 60, quando ocorre o "renascimento" do conceito de paisagem, dentro dos estudos geográficos, verifica-se que este acaba por adquirir uma importância bastante grande, frente à forma como era apreendida anteriormente. Associa-se esse fato, a ela ter ressurgido aliada ao conceito de geossistema, principalmente com a concepção difundida por G. Bertrand. Com o referido autor, a paisagem reaparece no cenário geográfico como uma unidade concreta e dinâmica, muito mais próxima do objeto da Geografia, enquanto ciência do espaço e da sociedade. Nestes termos, a paisagem, como unidade concreta, e o geossistema, como método teórico, formam um binômio inseparável e necessário, que até então faltava aos estudos geográficos.

Mesmo assim, os estudos da paisagem carecem ainda de melhores aprofundamentos, especialmente quando se trata da realização de estudos integrados. Estes continuam ainda em fases de experimentações conseguindo apenas aproximações de uma apreensão global.

Considerando todo o debate em torno do conceito e classificação das paisagens – após seu ressurgimento como unidade geográfica –, entre os diversos autores arrolados, reconhece-se a necessidade de clarificar a forma como este é apreendido e como foi feita a classificação das paisagens da área definida para estudo.

Tem-se em mente que, embora o conceito de paisagem apresentado por BERTRAND (1971) dá a ela um caráter concreto, ainda é concebida com bastante subjetividade pela maioria dos estudiosos, visto incluir no seu conceito aspectos não perceptíveis ou mensuráveis e nem mesmo apreendido identicamente por todos. Entretanto, tentou-se neste trabalho sintetizar as idéias lançadas pelo autor, despojando-se ao máximo da subjetividade e buscando desvendar os processos responsáveis e atuantes na sua configuração atual, almejando torná-la concreta.

Assim, a definição das unidades básicas, isto é, desvendar as "descontinuidades objetivas" da paisagem de Bonito, teve como linha norteadora, a proposta de BERTRAND (1971), considerando-se as críticas por ela sofridas e fazendo-se as devidas adaptações conceituais e metodológicas. Neste caso, as unidades básicas da paisagem foram definidas, levando-se em consideração não apenas um ou outro elemento, mas a partir do resultado global da combinação dos elementos paisagísticos, o que reflete, segundo as idéias de BERTRAND (1971), a dinâmica do conjunto, estando expressos na sua fisionomia. Para tanto, considerou-se o tripé proposto pelo autor: potencial ecológico (geologia, geomorfologia, clima), exploração biológica (vegetação, solo) e a ação antrópica, relacionando cada um deles, buscando ressaltar o papel desempenhado na configuração da paisagem.

Nestes termos, as unidades de paisagem definidas neste trabalho, refletem porções do espaço que apresentam características intrínsecas semelhantes, expressando as condições atuais do sistema evolutivo, ou seja, cada unidade demonstra seu estádio atual e sua posição em relação ao sistema evolutivo global. Portanto levou-se em conta, suas descontinuidades espaciais objetivas, a partir da manifestação dos elementos mais evidentes, como a geomorfologia, a geologia, o uso antrópico etc.

Para a determinação da dinâmica de cada unidade básica, considerou-se classificação lançada por BERTRAND (1971), a qual classifica cada porção do espaço de acordo com o balanço entre a estrutura abiótica, a estrutura biótica e a ação antrópica.

 

3.2. Materiais e Técnicas utilizadas

Os recursos básicos utilizados para a delimitação e cartografação das unidades da paisagem, foram as imagens LANDSAT TM, canais 3, 4 e 7, tratadas em laboratório via o software GRASS4.1®. Tal software possibilita combinar os canais em diversas opções de composições coloridas, permitindo um reconhecimento bastante preciso das unidades. Pari passu ao tratamento digital das imagens, os trabalhos de reconhecimento de campo excluíram aquelas dúvidas no processo de delimitação.

A escolha dos canais para esta pesquisa, teve, via de regra, como ponto de partida, aqueles que melhor ressaltassem os elementos na paisagem e que seriam alvo de investigação: a vegetação, a geomorfologia, os corpos d’água, a individualização litológica. Deste modo, escolheu-se os canais 3, 4 e 7, justamente aqueles sugeridos por ROSA (1995), com um coeficiente de correlação [Nota: O termo refere-se às respostas dos alvos dentro do espectro eletromagnético. Canais com coeficientes de correlação baixos significa que os mesmos alvos possuem respostas muito diferentes no espectro, registrando-se cada um deles com uma tonalidade diferente em cada canal.] entre si bastante baixo, conseqüentemente com uma maior quantidade de informações.

As imagens adquiridas situam-se na órbita 226, ponto 75, quadrante N (226.75N), datados de 15/02/87 e 28/05/95. Destas, fez-se um recorte espacial, englobando a porção destinada à análise. A tomada de duas datas de intervalos de anos diferentes, tem a finalidade de analisar as transformações têmporo-espaciais inseridas na paisagem pelo homem. Contudo as unidades básicas da paisagem atual foram executadas em cima da imagem de 28/05/95, com seus canais em tons de cinza e as composições coloridas.

 

3.2.1. Os tratamentos efetuados nas imagens orbitais

A seguir, estão descritas as principais etapas trilhadas no processo de tratamento de imagens de satélite via GRASS4.1® – a versão adquirida –, bem como os comandos do software utilizados:

A entrada da imagem digital LANDSAT TM no microcomputador, adquirida do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), foi feita após a passagem de sua versão original em fita magnética (CCT), para disquetes [Nota: Hoje as imagens podem ser adquiridas em CD-ROM, tornando o manuseio e o processo de entrada da imagem mais fácil e rápido. Além de imagens LANDSAT TM, outras como SPOT, MSS e fotos aéreas digitalizadas, também podem ser inseridas e tratadas via GRASS®]. Com os disquetes em mãos, insere-se as imagens dentro do GRASS®, gerando-se as imagens em tons de cinza (gray scale), no formato raster, com os respectivos canais. No caso deste trabalho, escolheu-se os canais 3, 4 e 7.

O passo que se segue corresponde ao realçamento das imagens em tons de cinza, através do processamento de composições coloridas (i.composite), combinando os canais com as três cores básicas: vermelho, verde e azul (RGB), gerando daí apenas uma imagem, com as informações dos três canais sintetizados, que corresponde à combinação da intensidade das cores, em função dos valores dos pixels em cada canal. Pode-se tomar os 3 canais, atribuindo uma cor para cada um deles, ou combinar apenas 2 canais, quando atribui-se a um dos canais 2 cores. Esta função pode ser efetuada com todas as possibilidades de composições possíveis. Sugere-se que se faça, antes de iniciar os tratamentos, uma filtragem da imagem, eliminando possíveis "ruídos" e tornando os dados desta visualmente mais evidentes, usando os comandos r.mapcalc, r.mfilter e r.neighbors.

Feitas as composições coloridas desejadas, parte-se para a retificação da imagem (i.rectify), quando "casa-se" esta – apresentada num sistema de coordenadas x e y (linhas e colunas) –, com um sistema de projeção e coordenadas padrões, por exemplo com a Universal Transversa de Mercator (UTM). Isto é feito mediante a identificação de pontos coincidentes (i.points) na imagem e na carta topográfica da área correspondente, ajudados pelo comando d.zoom, que amplia pontos escolhidos. Identificados os mesmos pontos nos dois produtos, entra-se com os dados UTM da carta topográfica, na imagem. São necessários um mínimo de 4 pontos, bem distribuídos ao longo da imagem, e com uma margem de erro reduzida. Daí, passa-se para a retificação da imagem, isto é, o processo de georeferenciamento.

Com a imagem retificada, agora com o mesmo sistema de coordenadas da carta topográfica, pode-se recortar a porção que se pretende-se estudar, com o comando g.region. É possível colocar as grades de coordenadas geográficas conforme a carta topográfica, com o comando d.grid, passo importante para a determinação da escala da imagem. Neste momento, a imagem está pronta para ser classificada.

A classificação é um processo de categorização dos dados da imagem raster baseado nos valores da reflectância espectral de cada pixel, isto é, o software irá agrupar, numa mesma categoria ou classe, os pixels ou células de valores espectrais iguais ou próximos. Este processo, parte do princípio de que todas as células de mesmo valor espectral (tonalidade) correspondem a um mesmo tipo de elemento, o que nem sempre é verdade.

O GRASS4.1® permite que se faça classificações supervisionadas (i.class seguido por i.maxlik), onde o usuário entra com informações, "ajudando" na identificação das classes de elementos da imagem, bem como classificações não-supervisionadas (i.cluster seguido por i.maxlik), na qual o próprio programa classifica os grupos elementos da imagem. Nos dois comandos, o usuário entra com o número de classes que se pretende agrupar, o que é feito mediante um conhecimento prévio dos componentes da paisagem analisada: floresta, solo nu, agricultura, pastagem etc. A função de classificação supervisionada está disponível apenas nas versões posteriores à versão GRASS3.0®.

Nem sempre, a classificação das imagens – supervisionada ou não-supervisionada –, pode ser absorvida como uma verdade absoluta e daí tirar todas as informações para o trabalho que se está realizando. Ela deve servir apenas como um auxílio, como um conjunto de informações adicionais, que ajudará na sistematização final do trabalho. No caso de paisagens homogêneas pouco alteradas, a classificação funciona de uma forma bastante satisfatória; já no caso de paisagens com alto grau de alteração, com uma diversidade bastante grande de classes, bem como relevo muito acidentado, este tipo de função do software apresenta algumas limitações.

Dados vector podem ser produzidos no próprio GRASS® ou inseridos via outros softwares, como o Autocad®. As imagens do tipo vector são visualizadas através do comando d.vect.

Após os tratamentos feitos no GRASS4.1®, as imagens foram transferidas para um outro aplicativo chamado XV (John Bradley), que funcionou como uma interface entre o GRASS4.1® e os outros softwares utilizados (Adobe Photoshop 3.0, CorelDraw 6, Corel PHOTO-PAINT 6), onde conseguiu-se inserir outras informações necessárias: legendas, escalas, textos, etc., e imprimi-las. Este software consegue gravar, mediante cópia, as imagens de satélites tratadas, numa série de extensões a escolher (TIFF, GIF, PCX, JPEG, etc.) e com tamanhos em bytes reduzidos, facilitando a transferência para outros softwares de ambiente DOS ou Windows.95. Entretanto, o processo de transferência das imagens de um software para outro, acaba por gerar uma perda de qualidade da resolução, a qual é percebida ao se dar um zoom na mesma.

Com a utilização de outros softwares (Adobe Photoshop 3.0, CorelDraw 6, Corel PHOTO-PAINT 6), fez-se as impressões das imagens, apresentadas neste trabalho.

3.2.2. Outras bases cartográficas

Além das imagens de satélite, outras bases cartográficas foram necessárias. Para a caracterização do substrato físico, recortou-se a área destinada à análise nos mapas de geologia, geomorfologia e pedologia do Projeto RADAMBRASIL, na escala 1:1.000.000. A partir daí, estes recortes foram "escaneados", digitalizando cada um deles via o software CorelDraw6 e depois, ampliados para a mesma escala das imagens de satélites trabalhadas (aproximadamente 1:250.000). Já o mapa hidrológico teve como fonte, as Cartas Topográfica do MME - DSG, na escala 1:100.000. Neste mapa, fez o processo inverso, necessitando reduzi-lo para a escala da imagem de satélite. Reconhece-se o processo de ampliação ou redução de mapas não ser um procedimento cartográfico correto. Contudo tal ato justifica-se para os objetivos e escala de estudo a que se destinam, não exercendo influência negativa, em vista da generalização da própria imagem de satélite, na escala apresentada.

A intenção, neste caso, foi organizar cada mapa com os diferentes temas, sob a forma de layers (camadas), o que possibilitou, ainda no microcomputador, comparar cada um deles em conjunto ou separadamente. Este processo permitiu uma análise integrada dos elementos, confrontando a espacialização de cada um deles com a estruturação superficial da paisagem (vegetação nativa e atividades antrópicas), constituindo-se como um rico material para delimitação de cada unidade básica da paisagem.

Reconhece-se uma importância impar no processo feito como o mapa das redes de drenagem, que fora reduzido de uma escala de 1:100.000 para uma escala de 1:250.000. Este mapa permitiu uma análise dos padrões de drenagem, relacionando-os ao fenômeno de carstificação.

 

3.2.3. Pirâmides de Vegetação

Uma outra técnica utilizada neste trabalho, com o intento de demonstrar a estrutura florística da área de pesquisa foi através das pirâmides de vegetação, aduzidas por BERTRAND (1966), a qual refere-se a uma cartografia vertical da vegetação. Segue-se uma descrição do processo de coleta de dados para a construção das pirâmides de vegetação.

A escolha da área de coleta deve obedecer certos critérios fundamentais, os quais referem-se em averiguar o grupo vegetal, com o propósito de escolher um lote que tenha uma configuração média dentro do conjunto. A partir daí, delimita-se parcelas de 20 x 20 m e coleta-se as informações requeridas (espécies por estratos, número de indivíduos de cada espécie, altura, recobrimento por espécies e por estratos). Os dados coletados são anotados na Ficha Biogeográfica, que consta de duas partes independentes: a parte fitossociológica, na qual são relacionadas as espécies vegetais mais representativas ocorrentes no lote escolhido, segundo os estratos, onde é observado sua estrutura e sua relação com o meio; e a parte geográfica, que são detalhados os fatores biogeográficos que influem na formação vegetal (altitude, clima, microclima, inclinação, exposição, erosão superficial, rocha-matriz) , além de serem assinaladas a ação antrópica e a dinâmica do conjunto, estas feitas a partir de observações locais, classificando, segundo se apresenta, em: progressiva, regressiva ou em estabilidade, de acordo com o que propõe BERTRAND (1966).

PASSOS (1996), destaca que para o detalhamento das características geográfica:

"é necessário um estudo prévio dos fatores do potencial ecológico que intervêm na paisagem. Conhecer, previamente, as características climáticas, os tipos principais de solo e o substrato geológico, supõe uma boa preparação para que, ao tomar contato com o terreno, não surjam dúvidas derivadas de uma falta de estudo. Ainda mais, com uma certa informação prévia, é possível acrescentarem-se observações de interesse e matizar a cartografia que existe sobre a área".

Em relação à coleta das espécies vegetais, trabalhou-se a partir dos parâmetros de análises já clássicos na ciência Botânica, mais precisamente da Fitossociologia: a abundância/dominância, correspondente à superfície coberta pelo conjunto das plantas e a sociabilidade, que refere-se ao modo de agrupamento com que elas se apresentam. As escalas utilizadas para determinar a abundância/dominância e a sociabilidade da vegetação, foram as mesmas que BERTRAND (1966) utilizou, tomada, por sua vez, de BRAUN-BLANQUET (1979), apresentada a seguir:

ABUNDÂNCIA/DOMINÂNCIA (A/D)

(superfície coberta)

SOCIABILIDADE (S)

(modo de agrupamento)

5: 75 a 100% 5: mancha densa
4: 50 a 75% 4: mancha pouco extensa
3: 25 a 50% 3: em grupo
2: 10 a 25% 2: agrupados em 2 ou 3
1: Planta abundante, mas não recobrindo superfície apreciável 1: isolados
+: alguns raros exemplares  

A construção das pirâmides de vegetação obedece algumas regras predeterminadas, descritas por BERTRAND (1966). Sua análise deve proceder-se tendo em mente que esta representa a Abundância/Dominância (A/D) dos estratos e a Sociabilidade (S) das espécies do lote coletado, apresentadas na Ficha Biogeográfica. Os estratos são apresentados no gráfico de acordo com a ordem normal de ocorrência, sendo que a espessura de cada um fora arbitrariamente escolhida. O comprimento de cada estrato é determinado pela percentagem de recobrimento da superfície (Ex.: 2 [10 a 25%] corresponderá a 2 cm de cada lado, partindo-se do centro, seguindo a mesma regra para os outros estratos). A Sociabilidade das espécies de cada estrato pode ser conhecida, observando-se a legenda e as hachuras no gráfico. A pirâmide de vegetação traz também uma representação do substrato (matéria orgânica, solo e rocha matriz). A dinâmica dos estratos (regressiva, progressiva ou em equilíbrio) é demonstrada pelos símbolos constantes na legenda e colocados lado a lado de cada um deles.

Neste trabalho, coletou-se 4 amostras de vegetação, datadas de março de 1996, estas representando os dois principais grupos fitoecológicos ocorrentes na quadrícula pesquisada: a Floresta Submontana (Floresta Estacional Decidual) e o Cerrado (Áreas de Tensão Ecológica) em ambientes diferenciados, escolhidos de acordo com os critérios anteriormente arrolados. As pirâmides de vegetação, bem como as Fichas Biogeográficas dos lotes coletados, podem ser visualizadas no item 4.2.2.1.

 

3.2.4. A Atividade Turística

A importância desempenhada pelo setor turístico em Bonito hoje, fez com que se fizesse neste trabalho uma abertura destinada a analisá-lo e apresentar como este tem sido feito na região.

Para um embasamento a respeito do assunto, foram feitas algumas leituras relacionadas à atividade, necessárias à compreensão do seu funcionamento e da sua concepção ao longo da história do homem. Neste processo, conseguiu-se apreender os mecanismos que cercam o desenvolvimento, a manutenção e os problemas relacionados à atividade em um local.

A coleta de informações sobre a atividade turística em Bonito, foi feita mediante entrevistas em agências de turismo locais, órgãos municipais ligados e responsáveis pelo setor, reportagens veiculadas em revistas, jornais e TV’s e observações in loco, estas últimas, conseguidas pelo acompanhamento do desenvolver da atividade ao longo dos anos em contato com a região.

 


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