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CAPÍTULO VII - CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Ao término das descrições e análises a respeito das paisagens que imperam na região de Bonito, partir-se-á agora para alguns comentários que merecem ser frisados, diante das hipóteses e questionamentos ora levantados, visando fazer algumas considerações conclusivas sobre:

a) As paisagens:

Deve-se relembrar uma vez mais, das potencialidades naturais de que a região em enfoque dispõe, o que, considera-se ser a principal causa do tamanho interesse eclodido recentemente por ela, tanto no setor primário (agropecuária e extrativismo) quanto terciário (turismo, em especial). Nestes termos, o espaço natural de Bonito passou a sofrer uma insidiosa remodelagem, criando um verdadeiro mosaico de paisagens, expresso claramente nas imagens de satélite apresentadas neste trabalho, bem como, pelas unidades básicas descritas no Capítulo VI.

BERTRAND (1971) enfatizou que a paisagem é a síntese global dos elementos bióticos, abióticos e antrópicos constituintes, refletidos na sua fisionomia. Neste trabalho, adotou-se esta concepção e, ao se analisar a configuração e fisionomia das diferentes paisagens, constatou-se que os elementos abióticos possuem um papel determinante na estruturação destas, sendo responsáveis, praticamente, por todos os outros fenômenos que irão ocorrer na superfície, até mesmo grande parte dos fenômenos de ordem antrópica. Isto é, durante as análises, ficou claro que todo o meio biótico (vegetação, em especial) tem uma relação muito estreita com o substrato, representado pela estrutura geológica. Pode ser exemplificado com a diferença marcante entre a vegetação encontrada nas áreas de predominância absoluta de calcários, estes com alto grau de fertilidade, com aquela desenvolvida sobre outros tipos litológicos encontrados na região, como os filitos do Grupo Cuiabá e os arenitos da Formação Aquidauana. No primeiro caso, tem-se um tipo de vegetação de espécies predominantemente arbóreas (Floresta Decidual) e, neste último, tem-se uma vegetação com caráter muito mais arbustivo (cerrado ou Áreas de Tensão Ecológica), revelando estar relacionada ao grau de fertilidade dos solos produzidos por cada tipo litológico. Confirma-se, assim, que as variações locais das formações vegetais são comandadas pelas variações dos tipos de solos. Do mesmo modo, a ocupação antrópica esteve, até o momento, em função das condições topográficas e lito-pedológicas, onde conservou-se os chamados mogotes com vegetação e desmatou-se os vales aplainados, muito mais propícios à prática agropecuária. Naquelas partes onde o grau de fertilidade dos solos aliada à profundidade necessária à mecanização, apresentam-se favoráveis, a prática da agricultura se faz presente.

Anexamos às informações acima arroladas a existência de uma herança paleo-ambiental, que proporcionou o desenvolvimento de uma maior ou menor potencialidade das paisagens ou geossistemas, que se reflete em todas as atividades atuais, sejam paisagísticas ou antrópicas. Isto é, se não houvesse um paleo-ambiente geológico, estrutural, climático e biológico propícios à formação do calcário e de outros tipos litológicos, o quadro atual estaria organizado de forma completamente diferente. Assim, as paisagens atuais consistem num período passageiro na dinâmica evolutiva global e o agente antrópico participa apenas como um elemento extra dentro desse mesmo processo.

Síntese:

· a noção de paisagem de BERTRAND (1971) aplica-se perfeitamente à área trabalhada;

· o potencial ecológico tem papel determinante na estrutura fisionômica da paisagem;

· a ação antrópica constitui apenas uma atividade a mais dentro do sistema evolutivo global da paisagem, porém para a dinâmica atual, seu papel é determinante;

· as paisagens, além de serem uma síntese da integração dos elementos (potencial ecológico, exploração biológica e ação antrópica), constitui também a expressão de heranças paleo-ambientais.

b) As imagens de satélite e as unidades básicas da paisagem;

As imagens e satélites, como descrito no item 2.3., registram uma síntese global de todos os elementos da área imageada, até mesmo aqueles invisíveis aos olhos humanos. Considerando-se as teorizações aduzidas por BERTRAND (1971), quando expõe que a fisionomia da paisagem representa a síntese dos elementos integrantes – anexa-se aqui a herança "paleogeossistêmica" – e que, no caso deste trabalho, utilizou-se imagens de satélite para a definição das unidades básicas da paisagem, verificou-se que estas (as imagens de satélite) constituem uma ferramenta muito importante para este tipo de estudo, como afirmara TRICART (1979). As informações fornecidas pela interpretação das imagens de satélite (tanto das composições coloridas quanto da imagens gray scale) corresponderam, em grande medida, àquelas apresentadas pelos mapas geológico, geomorfológico, pedológico e hidrológico da área. A sobreposição de cada um destes mapas à imagem de satélite demonstrou grande correlação entre si, refletindo que as tonalidades (fisionomia) apresentada pelas imagens de satélite correspondem à estruturação interna das unidades de paisagem. Assim sendo, o conceito de paisagem apresentado por BERTRAND (op cit), aplica-se perfeitamente às paisagens da área escolhida para estudo. É necessário tentar uma aplicação em áreas com outras características, para se estabelecer o grau de correspondência nos diferentes geossistemas.

Ressalte-se que cada uma das unidades básicas definidas deve ser vista como porções do espaço que participam de um mesmo sistema evolutivo atual, embora apresente em seu interior diferentes geofácies com fases evolutivas diversas, impossíveis de serem delimitadas na escala trabalhada. Para os trabalhos de ordenação e gerenciamento do espaço, estes geofácies devem ser considerados.

Neste ponto, diante do observado, o que aqui se propõe é que novos estudos sejam efetuados em áreas de características lito-geológicas semelhantes, condicionadas a elementos geo-ambientais distintos, como o clima, com a finalidade de se obter parâmetros de comparação quanto à correspondência da síntese da paisagem cárstica com os elementos do meio, tomando como ponto de partida a variação do elemento climático. Outra proposta seria na aplicação dos mesmos métodos em áreas de diversidade lito-geológica, mas com característica climática única, onde poder-se-á verificar a correspondência dos elementos do potencial ecológico na síntese da paisagem. Estes estudos proporcionariam um equacionamento da influência do potencial ecológico, da exploração biológica e da ação antrópica em diferentes meios e situações de interferência, na definição de paisagem, possibilitando elaborar um padrão de correlações.

Síntese:

· as imagens de satélites, após os devidos tratamentos, são ferramentas muito úteis para os estudos de paisagem, pois conseguem sintetizar todos os elementos, obtendo-se daí uma resposta capaz de fornecer uma apreensão global da paisagem. Parte-se então para os estudos detalhados, via trabalhos de campo;

· existe uma estreita correlação entre as respostas da imagens de satélites e os elementos do meio físico;

· as unidades básicas da paisagem podem ser delimitadas, a priori, utilizando imagens de satélites, porém os devidos conhecimentos e "checagens" de campo são necessários.

c) O turismo

O período compreendido pela imagens de satélites analisadas (1987-1995), corresponde, como ressaltado anteriormente, à fase da "descoberta" da região, por parte do capital e, por conseqüência, de uma maior dinamização na remodelagem das paisagens. Por outro lado, o fato de a consciência da vocação turística de Bonito, ter emergido também neste período, implicou numa maior preocupação – pelo menos aparentemente –, por parte dos órgãos ambientais, que passaram a visar com maior rigor a ocupação do espaço regional, através da fundação de instituições locais e da própria organização da cidade para tal atividade, além da exigência por parte do próprio turista.

A abertura de agências de turismo, a criação da Secretaria Municipal do Turismo, com uma consciência voltada para a exploração e preservação das belezas locais, bem como o tombamento de alguns pontos turísticos, como a Gruta do Lago Azul, contribuiu bastante para a formação de uma consciência mais valorizadora dos bens naturais.

Não obstante, mesmo com a grande valorização dada ao setor turístico em Bonito, e este ser responsável por uma mudança no direcionamento das ações tomadas, ainda é uma fonte de renda pequena para os cofres do município. Neste processo, política e economicamente, torna-se difícil evitar a incorporação de novas áreas à atividade agropecuária, que é a maior fonte de arrecadação de divisas. Tece-se este tipo de consideração porque a conservação das belezas naturais de Bonito depende da conservação do espaço em sua forma, no mínimo, nas condições sustentáveis atuais. Os remanescentes florestais são responsáveis por inúmeras atividades que se processam no meio físico do ponto de vista do equilíbrio natural e, à medida que estes são excluídos, o seu grau de fragilidade aumenta, comprometendo muitas das formas e qualidades dos objetos de observação e desfrute do turista e, por extensão, da própria sustentabilidade econômica da região.

Considera-se, ainda, que o turismo em Bonito, bem como as outras atividades econômicas desenvolvidas em seu território, especialmente do setor primário, devem mais que em qualquer outro lugar, passar por um constante controle e gerenciamento, necessários à manutenção de condições utilizáveis nas próximas gerações. Deve-se, igualmente, atentar-se para a possibilidade da entrada de unidades industriais em seu território, e uma fiscalização daquelas já existentes, como é o caso das unidades de exploração do calcário e do mármore.

Se Bonito pretende consolidar-se enquanto cidade turística, muita coisa deve ser repensada dentro de seu processo de desenvolvimento, como uma ordenação de seu território, destinando cada porção de seu espaço para a atividade que mais lhe convém ecologicamente, encarando o meio ambiente como um fim, isto é, que sua geoecologia tenha primazia dentro do processo produtivo.

Dentro dessa conjuntura, destaca-se a necessidade de uma revisão da forma explorativa do espaço bonitense para o turismo, com vistas a adequar o seu potencial natural a uma sustentabilidade, especificamente, num contexto em que tal espaço oferece condições ímpares de produção e reprodução do capital.

O turismo, com tendência ao crescimento pode vir a ser uma das fontes de renda mais importante para o município de Bonito. Para tanto, há a necessidade de uma definição dos seus objetivos econômicos, onde "fale-se uma única linguagem", isto é, onde autoridades políticas, agricultores, pecuaristas, mineradoras etc., atuantes na região, primem pela conservação do potencial de que seu espaço de exploração dispõe. Dessa forma, a região de Bonito poderá estar cada vez mais estruturada para o acolhimento do contingente que o procura e o divulga.

 


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