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CAPÍTULO VI - AS UNIDADES BÁSICAS DA PAISAGEM

 

A organização da paisagem, como tratado anteriormente, constitui a síntese da integração dos elementos participantes. Entretanto, há que se destacar a importância maior de alguns elementos em detrimento de outros, no seio da evolução geral da paisagem. Estes elementos preponderantes, constituem a base da evolução e são, evidentemente, os mais aparentes no processo evolutivo. Evidencia-se, dessa forma, que os elementos da paisagem se manifestam hierarquicamente, e deve-se estar atento a este fato, para se compreender a estruturação paisagística.

Ressalte-se que numa escala têmporo-espacial os elementos mais evidentes na evolução da paisagem nem sempre são os mesmos e que, portanto, a passagem da preponderância de um elemento paisagístico para outro, anuncia uma descontinuidade no sentido evolutivo da paisagem. Para a escala de tempo humana, estas descontinuidades são quase sempre determinadas pelo próprio homem, em seu processo de intervenção na natureza. Além de uma descontinuidade temporal da manifestação dos elementos, tem-se também, uma descontinuidade espacial, o que explica a diversidade fisionômica das paisagens.

Percebe-se, portanto, que não é possível definir todas as unidades básicas da paisagem a partir de um elemento apenas, devendo atentar-se para a hierarquia com a qual se manifestam os elementos da estruturação paisagística. Em cada unidade, utilizou-se na delimitação, o elemento mais ressaltante fisionomicamente, porém, tendo como critério único a procura das "descontinuidades objetivas", evidenciadas pela dinâmica atual do conjunto.

A seguir estão apresentadas as 5 unidades básicas da paisagem, identificadas na área de estudo, bem como uma descrição e análise de cada uma delas.

 

6.1. A Unidade Cárstica da Bodoquena

A delimitação desta unidade foi feita, especialmente, devido a uma uniformidade nas tonalidades da imagem de satélite, o que a define como uma porção bastante distinta daquelas que a rodeia. A tonalidade forte de vermelho reflete uma cobertura vegetal maciça, a qual foi o principal elemento definidor desta unidade.

Denominou-se tal porção de Unidade Cárstica da Bodoquena, devido estar assentada sobre o maciço calcário da Serra da Bodoquena, de topografia movimentada. Provavelmente, a dificuldade de exploração da área tem sido o principal fato contribuidor para a manutenção da cobertura vegetal original (Floresta Submontana - Floresta Estacional Decidual), embora seja perceptível, ao se analisar as duas datas das imagens, uma retirada representativa desta na sua porção ocidental (quadrantes B4 e C5) . Uma amostra da estrutura vertical desta unidade, pode ser observada na pirâmide de vegetação dos Lotes 01 e 02 (vide Fig. 4.5. e Fig. 4.6.).

Em quaisquer composições coloridas da imagem, a Unidade Cárstica da Bodoquena aparece como uma porção muito bem definida, deixando claro que sua existência é decorrente de uma combinação de elementos que a faz funcionar dentro de uma mesma dinâmica. Tomado-se o canal 3, em tons de cinza, esta unidade aparece com uma tonalidade bastante escura devido a reflectância da vegetação ser bem menor neste comprimento de onda.

Outras pequenas porções, separadas do grande maciço da Bodoquena, foram consideradas como participantes dessa mesma unidade por apresentar as mesmas características fisionômicas.

A Unidade Cárstica da Bodoquena desenvolve-se sobre os calcários da Formação Bocaina, estes mais resistentes ao processo de dissolução, sendo por isto responsável pela topografia movimentada e pelas maiores elevações da Serra da Bodoquena na região. De acordo com observações in loco, por ocasião dos trabalhos de campo, observou-se que, apesar da vegetação exuberante (vide Foto 6.1.), os solos, apesar de muito férteis (Rendzina), são pouco profundos, constituídos de grande quantidade de rocha inalterada em superfície e afloramentos. Associa-se a este fato a manutenção do maciço florestal original ou pouco transformado, funcionando como um obstáculo a outros tipos de uso.

Foto 6.1. Vista geral da cobertura vegetal da Unidade Cárstica da Bodoquena (DIAS, 1998).

A Unidade Cárstica da Bodoquena por estar localizada nas porções mais elevadas da Serra da Bodoquena na região, constitui uma área de recarga hídrica, importantíssima para a dinâmica hidrológica regional. A imensa quantidade de falhamentos e fraturas verificadas na unidade, tanto no Mapa Geológico (vide Fig. 4.2.) quanto facilmente observadas em imagens de radar e fotos aéreas da área, indicam potencial para circulação subterrânea, com a ocorrência de sumidouros. Visitas in loco comprovaram a existência de sumidouros. Este fato explica a pequena quantidade de cursos d’água que cortam a unidade, destacando-se apenas o rio Perdido e algumas nascentes de afluentes da bacia do rio Formoso.

A Unidade Cárstica da Bodoquena é, dentre as unidades definidas, aquela que apresenta uma maior homogeneidade no sistema evolutivo. A dinâmica global desta unidade expressa um desenvolvimento harmônico entre os subsistemas abiótico e biótico, dado a pequena ou nenhuma intervenção de ordem antrópica e a manutenção da cobertura vegetal original em toda sua extensão. No conjunto, a Unidade Cárstica da Bodoquena participa atualmente de uma dinâmica biostásica climácica, onde a atuação da geomorfogênese é insignificante.

Um local de risco dentro desta unidade, refere-se àquela que sofreu um processo de devastação florestal nos últimos anos, o que pode comprometer a estabilidade natural desta porção e daquelas que estão imediatamente no seu entorno.

6.2. A Unidade do Formoso/Perdido

O elemento ressaltante na delimitação da Unidade do Formoso/Perdido, foi o excesso de água, que se manifesta em banhados ou brejões (vide Foto 6.2.), acompanhando largo trecho ao longo do curso dos rios homônimos e pequenas outras áreas isoladas.

Tal unidade apresenta, nas composições coloridas das imagens de satélites, contornos bastante nítidos, em tons esverdeados. Quando tomado o canal 4 (tons de cinza), que realça os corpos hídricos, percebe-se uma nitidez ainda maior desta unidade. Se se observar a imagem de 15/02/87, que, teoricamente, foi registrada num período de maior concentração de chuvas (verão), constata-se que esta unidade básica destaca-se ainda mais, provavelmente por apresentar neste momento, afloramentos de água, visto suavidade da topografia.

Foto 6.2. Vista geral dos banhados da Unidade do Formoso/Perdido (DIAS, 1998).

As áreas dessa unidade que acompanham o curso do rio Formoso e seus afluentes, ao contrário da Unidade Cárstica da Bodoquena, constitui áreas de descarga hídrica, uma vez que são as áreas mais rebaixadas da região e de topografia suave. Nesta unidade encontra-se grande parte das ressurgências, com destaque para a já citada ressurgência do rio Sucuri, de beleza impressionante.

Outro fator de destaque, é que grande parte desta unidade desenvolve-se sobre áreas de depósitos da Formação Xaraiés, tanto nas proximidades do rio Formoso quanto no rio Perdido, sobre solos do tipo Glei Húmico eutrófico vértico, além de outros em menor escala.

A vegetação natural dessa unidade é do tipo herbáceo-arbustiva, própria de áreas muito úmidas. Este tipo de vegetação favorece a ocupação como pastagens naturais, o que tem ocorrido atualmente. Além disso, beneficiados pela alta umidade e fertilidade dos solos, alguns núcleos agrícolas, em especial de soja, tem sido implantados na área (vide Foto 6.3.).

Foto 6.3. Agricultura próximo às nascentes do Rio Formoso (DIAS, 1998).

Merece ser ressaltado, também, a exploração do calcário da Formação Xaraiés, este com textura pulverulenta, em alguns pontos da Unidade do Formoso/Perdido (vide Foto 6.4.). A sua exploração implica na abertura deenormes clareiras na vegetação e uma desestruturação no potencial ecológico, além de restar um aspecto visual desagradável, quando do abandono da atividade. Como os depósitos do calcário da Formação Xaraiés estão associados aos cursos dos rios Formoso e Perdido, os "ferimentos" deixados pela exploração estão sempre próximos as suas margens, o que no período chuvoso, quando o nível do lençol freático eleva-se, acaba por inundar as áreas de exploração.

Foto 6.4. Exploração de calcário da Formação Xaraiés próximo ao rio Formoso (DIAS, 1998)

Muitas das planícies formadas pelos depósitos do calcário da Formação Xaraiés assemelham-se bastante aos poljés descritos por BIGARELLA et alii (1994), embora não constituam depressões fechadas advindas da evolução de dolinas e uvalas. KOHLER (1988) e LIMA (1992) consideram a existência de pequenos poljés no carste de Bonito. Estes, na região, aparecem como áreas muito planas, interrompidas por alguns mogotes ou humes.

Pela Unidade do Formoso/Perdido caracterizar-se por elevada umidade e, portanto, assentar-se sobre nascentes e banhados ou brejões, deve ser levado em conta a importância desta para a dinâmica hídrica regional, necessitando de uma conservação sistemática.

Embora esteja sob pressão do agente antrópico, explorando-a para a agropecuária e o extrativismo, a Unidade do Formoso/Perdido, pode ser enquadrada dentro de uma dinâmica biostásica paraclimácica, esta marcada por uma evolução de origem antrópica. A variável que mais contribui para a relativa estabilidade do potencial ecológico da Unidade do Formoso/Perdido, é a suavidade da topografia.

 

6.3. A Unidade dos Morros Disjuntos

Separado do Maciço da Bodoquena, aparece um verdadeiro "campo de morros" quase sempre isolados uns dos outros, ao qual denominou-se Unidade dos Morros Disjuntos. O elemento fisionômico utilizado para a definição desta unidade foi a irregularidade da topografia, representada pelos morros, bem como a vegetação – em tons avermelhados – que se manifesta em pequenas porções isoladas umas das outras, justamente sobre os referidos morros.

A Unidade dos Morros Disjuntos constitui uma porção com relevos bastante dissecados, restando um conjunto de morros isolados (vide Foto 6.5). Corresponde a uma área de transição entre a Formação Cerradinho, Bocaina e Grupo Cuiabá. Esta transição de formações e grupos litológicos, implica numa diferenciação no formato, composição e disposição dos morros residuais, bem como nos tipos de vales.

Foto 6.5 Vista geral do morros isolados (mogotes) (DIAS, 1998).

Durante os trabalhos de campo, constatou-se que sobre os calcários das Formações Cerradinho e Bocaina, os vales caracterizam-se por uma planura, em meio a morros isolados e arredondados (mogotes). Já sobre as litologias do Grupo Cuiabá, constituídas localmente, predominantemente por filitos, produzem vales em "V", com superfícies côncavo-convexas. Nestes, os morros residuais, compostos por calcários, apresentam-se alongados e alinhados no sentido norte-sul. Esta diferença na configuração da paisagem está ligada, estritamente, à composição litológica e aos tipos de processos na desnudação da paisagem.

Como a Formação Bocaina sobrepõe-se na coluna estratigráfica a Formação Cerradinho, esta última aparece na Unidade dos Morros Disjuntos nas porções mais rebaixadas, de dissecação mais acentuada, em especial numa estreita faixa norte-sul na porção ocidental.

A predominância absoluta de litologias carbonáticas na porção ocidental da Unidade dos Morros Disjuntos, aliada a uma maior dissecação do relevo, que também indica uma fase mais evoluída do carste, vai refletir em cursos d’água pouco volumosos e pouco numerosos. Destaca-se o córrego Anhumas e o córrego Taquaral, afluentes do rio Formosinho. É nessa porção da unidade que ocorre boa parte das feições cársticas da região.

Já na porção oriental da referida unidade, sobre as litologias do Grupo Cuiabá, os cursos d’água indicam tipos de rochas menos permeáveis, que refletirão numa rede hidrográfica muito mais numerosa, destacando o rio Mimoso e seus afluentes.

A Unidade dos Morros Disjuntos, apresenta, ligado também a diferença litológica, diversos tipos de solo, destacando a Terra Roxa Estruturada Similar eutrófica desenvolvida especialmente sobre as Formações Cerradinho e Bocaina. Na área com litologias filíticas do Grupo Cuiabá, desenvolve-se o Regossolo álico, de pequena profundidade e com menor fertilidade. Ocorre também em menor escala, porções de Rendzina, Brunizém Avermelhado e Latossolo Vermelho-Escuro álico.

Esta unidade tem sido utilizada, predominantemente, para a pecuária, seja com pastagens artificiais implantadas nas áreas desmatadas em meio aos mogotes, ou com o próprio cerrado, como pastagem natural. Encontra-se também algumas amostras de atividade agrícola, especialmente sobre os solos mais férteis, nos vales aplainados da porção ocidental.

A Unidade dos Morros Disjuntos abriga ainda, o núcleo urbano de Bonito, local onde concentram-se as maiores interferências no meio físico, bem como a produção de resíduos degradantes ao meio. Neste caso, este espaço e todo o seu entorno – onde exerce influências – deve ser tratado de forma diferenciada. Atenta-se para os canais hidrográficos que cortam o perímetro urbano, estes exercendo o papel de receptores de materiais de toda ordem e, por extensão, potencialmente degradadores.

A irregularidade da topografia da Unidade dos Morros Disjuntos, aliada aos desmatamentos das áreas mais planas, bem como de alguns morros residuais, juntamente com o uso atual com pastagens e agricultura, conduziu a uma classificação da dinâmica como biostásica climácica sobre os morros residuais recobertos por vegetação original e com dinâmica do tipo biostásica degradada regressiva nas áreas planas entre tais morros, visto constituírem porções ainda em processo de degradação.

 

6.4. A Unidade de Pastagens

 

A Unidade de Pastagens foi definida visto aparecer como áreas bastante alteradas pela intervenção antrópica, sendo este o elemento determinante na sua elaboração. A exclusão da cobertura vegetal original de grande e médio porte, aparece nitidamente da imagem de satélite com tons claros – amarelados, branco-azulados, rosados –, além de serem acusados pelos formatos retangulares.

Esta unidade aparece distribuída, principalmente, na porção oriental da quadrícula pesquisada, associada à presença da sede do município, este funcionando, historicamente, com centro difusor de alterações na paisagem. A implantação da atividade pastoril na região, tem sido a maior responsável pela desfiguração da vegetação original, restando apenas alguns pontos isolados, acompanhando cursos d’água ou nos mogotes. Juntamente com a pecuária, a atividade agrícola completa o processo de desfiguração das paisagens originais. É sobre a Formação Cerradinho que estão localizada as maiores extensões de pastagens extensivas. Muitas dessas extensões foram, em tempos pretéritos, ocupadas com agricultura.

A Unidade de Pastagens foi a que mais apresentou transformações na sua fisiologia, entre os períodos analisados pelas duas imagens de satélites (1987 e 1995). Na maioria dos casos, houve uma retirada total da vegetação para a implantação de pastagens artificiais com o gênero Brachiária. Entretanto, parte das pastagens são ainda de vegetação original – o cerrado –, no qual foi retirada apenas a vegetação de porte maior, restando uma vegetação de caráter herbáceo/arbustivo. A estrutura destas porções de cerrado, com um certo grau de degradação, pode ser observada nas pirâmides de vegetação dos Lotes 03 e 04.

É possível identificar muitas porções de agricultura dentro desta unidade, porém o tamanho reduzido destas e a predominância da atividade pastoril, levou a integrá-la dentro da Unidade de Pastagens. Além disso, considera-se que a delimitação de porções muito reduzidas acabaria por desviar da noção de unidade básica.

A delimitação desta unidade considerando-se, especificamente, o uso do solo, justifica-se pelo fato desta apresentar-se com uma fisionomia criada pela ação antrópica, o que conseqüentemente irá resultar num tipo de dinâmica e funcionamento determinado, evidentemente, pelas transformações impostas.

A Unidade de Pastagens foi considerada como participante, atualmente, de uma dinâmica biostásica degradada regressiva. Apesar da degradação da vegetação original e mesmo da utilização desta como pastagens naturais, não se percebe uma atuação da geomorfogênese que se possa considerar como expressiva. Contudo, verifica-se que há uma constante intercalação entre pastagens e agricultura em muitas porções da unidade, especialmente comandadas pelas oscilações do mercado econômico. Neste caso, temos, identicamente, uma inconstância na dinâmica destas porções.

 

6.5. A Unidade Agrícola

O conjunto de áreas denominadas como Unidade Agrícola, corresponde, especialmente, àquelas de solos essencialmente calcários; em alguns casos, onde aparecem exemplos de pequenos poljés. Esta unidade, embora não abrangendo extensas áreas contínuas, foi delimitada devido exercer importância no processo de desfiguração das paisagens originais e ser praticada em alguns locais e condições que merecem cuidados muito especiais com o substrato físico.

A análise das imagens, juntamente com as comprovações de campo, mostrou uma concentração de áreas agrícolas nas imediações das nascentes do rio Formoso e de alguns de seu afluentes. Percebe-se uma tendência às porções agrícolas localizarem-se sobre os calcários da Formação Cerradinho, uma vez que estes, bem mais dissecados, apresentam topografia suave e solos mais profundos (Terra Roxa Estruturada Similar eutrófica) o que favorece muito tal atividade. Os trechos desenvolvidos nas proximidades do rio Formoso desfrutam, além a suavidade da topografia, de um outro fator importante para a atividade que é a elevada umidade dos solos, representada pela Unidade do Formoso/Perdido e os solos resultantes da Formação Xaraiés (Glei Húmico eutrófico vértico).

Além das áreas delimitadas como pertencentes a Unidade Agrícola, muitas outras porções de tamanho reduzido são encontradas, distribuídas por toda a extensão da imagem, exceto em meio à Unidade Cárstica da Bodoquena, porém, difíceis de serem mapeadas. Via de regra, a agricultura na região é praticada nos vales aplainados, interrompidos pelos morros residuais. A soja tem sido o principal produto cultivado na região em grande escala, seguido pelo milho.

Deve-se ressaltar que a definição desta unidade deu-se em função das informações contidas na imagem de satélite datada de 28/05/1995, juntamente com visitas de campo. Considerando-se a época do rastreamento como um período em que as culturas (soja e milho) encontram-se já colhidas ou em fase de colheita, algumas informações podem confundir-se com áreas de pastagens e vice-versa. Se comparar-se a imagem de 1987 com a de 1995, perceber-se-á que muitas das áreas reconhecidas como de atividade agrícola na primeira, não apresentam a mesma resposta na segunda. Para tanto, deve-se considerar que além da datação ser de anos diferentes e da sazonalidade, outros aspectos podem responder aos questinamentos, como a questão da política de liberação de recursos para a atividade e a tendência à preferência pela pecuária nos últimos anos, como uma fato de ocorrência nacional.

No geral, a atividade agrícola, revela perigo em potencial para os mananciais. A cobertura vegetal temporária e de porte mínimo (agricultura) não funciona como proteção à emissão de resíduos sólidos aos córregos e rios. Aliado a este fato, a utilização de insumos agrícolas em uma área em que a estrutura dos solos e rochas são tão permeáveis, aumentam o gradiente de periculosidade ao ambiente. Os casos mais graves são aqueles em que a concentração da atividade está nas imediações das nascentes. Ademais, encontra-se área de agricultura sobre terrenos constituídos por grande número de dolinas, estas aparecendo como verdadeiras ilhas de matas em meio à plantações (vide Foto 6.6.) Sabendo-se que as dolinas estabelecem uma ligação entre a superfície e os canais subterrâneos, funcionando como "suspiros" destes, salienta-se os riscos de uma contaminação dos aqüíferos subterrâneos, via entrada de materiais degradantes (agrotóxicos) por elas.

Foto 6.6. Vista de dolinas em meio à plantações (DIAS,1998).

Nas pesquisas de campo percebeu-se que, a presença de curvas de nível em muitas propriedades com declives mais acentuados (vide Foto 6.7.), tem protegido, até certo ponto, dos efeitos do assoreamento e a conseqüente coloração das águas cristalinas.

Foto 6.7 Vista de área agrícola com curvas de nível (DIAS,1998)

Considerando-se que a Unidade Agrícola aparece descontinuamente e em pequenas porções pela área, a definição de uma dinâmica única para toda a ocorrência certamente cairá na generalização. Todavia, sabendo-se que as condições topográficas dos locais onde é praticada a atividade agrícola são relativamente suaves e que há uma preocupação em implantar curvas de nível naqueles locais de declividade um pouco mais acentuada, a dinâmica da Unidade Agrícola com um todo pode ser definida atualmente como biostásica degradada regressiva. A classificação como regressiva deve-se ao fato de boa parte do ano estas áreas estarem desprovidas de qualquer cobertura vegetal, o que pode implicar numa atuação da geomorfogênese, estando próximas, em alguns pontos localizados, de uma dinâmica do tipo resistásica.

Quadro Síntese

UNIDADE

GEOLOGIA

GEOMORFOLOGIA

PEDOLOGIA

HIDROLOGIA

CLIMA

VEGETAÇÃO ORIGINAL

USO ATUAL

DINÂMICA

1. Unidade

Cárstica

da

Bodoquena

· Calcários e dolomitos da Formação Bocaina (Grupo Corumbá)

· Intensos falhamentos e fraturas

· Porções mais elevadas da Serra da Bodoquena

· Formas de topo convexo com baixo grau de dissecação

· Rendzinas

· Solos rasos com presença marcante de calhaus e matacões

· Rede de drenagem superficial bastante escassa

· Área de recarga dos sistema hídrico com ocorrência de sumidouros

· Tropical Sub-úmido

· Microclima: a grande densidade da floresta conserva no seu interior um alto grau de umidade

· Floresta Decidual (Floresta Submontana), ainda conservada no seu estado original · Floresta original, com pouca intervenção antrópica · Alto grau de estabilidade entre o potencial ecológico e a exploração biológica, com uma pequena atuação do agente antrópico

· Dinâmica biostásica climácica

2. Unidade

do

Formoso/

Perdido

· Calcários pulverulentos da Formação Xaraiés; Calcário e dolomitos da Formação Cerradinho e Filitos do Grupo Cuiabá. · Predominância nas porções mais rebaixadas, com superfícies pediplanadas.

· Corresponde às áreas de planícies, acompanhando os cursos dos rios homônimos

· Predominância do solo Glei Húmico eutrófico vértico, com ocorrência da Terra Roxa Estruturada Similar eutrófica e Latossolo Vermelho-Escuro álico

· Solos profundos

· Nascentes de alguns rios importantes

· Constitui áreas de descarga do sistema hídrico regional, com ocorrência de ressurgências

· Tropical Sub-úmido · Predominância de formações herbáceo-arbustivas (Áreas de Tensão Ecológica) típicas de áreas muito úmidas (veredas)

· Matas galerias acompanham os cursos d’água

· Pastagens naturais e artificiais, agricultura e exploração do Calcário da Formação Xaraiés em pontos isolados · A planura da área impede uma atuação generalizada da geomorfogênese, mas o uso antrópico para agricultura, pastagens, e extrativismo provocou uma desestabilização na exploração biológica e, este último, no potencial ecológico

· Dinâmica biostásica paraclimácica

3. Unidade

dos

Morros

Disjuntos

· Calcários e dolomitos da Formação Cerradinho e Bocaina (Grupo Corumbá) na porção oeste da quadrícula, tanto nos morros quanto nos vales aplainados

· Predominância de filitos do Grupo Cuiabá no vales e calcários nos morros na parte leste

· Presença de metagrauvacas, metaconglomerados etc. (Grupo Cuiabá), nas zonas fraturadas e falhadas

· Superfícies dissecadas, restando morros residuais isolados (mogotes) de formato convexo com vales de fundo plano na porção oeste

· Presença de morfologia com morros residuais convexos e separados por vales em "V" na porção leste

· Corresponde à área de maior ocorrências de formas cársticas

· Predominância da Terra Roxa Similar eutrófica, com a presença do Regossolo álico e em menores áreas ocorrendo Rendzina, Brunizém Avermelhado e Latossolo Vermelho-Escuro álico

· Grande diversidade de profundidade entre os tipos de solos

· A porção oeste é marcada por pequena densidade de redes de drenagem, associada à predominância de calcários

· Na porção leste verifica-se uma alta densidade de redes hidrográficas, associadas à predominância dos filitos

· Tropical Sub-úmido · Ocorrência de formações florestais na porção oeste

· Predominância de formações arbustivas (Cerrados - Áreas de Tensão Ecológica) nos vales e ocorrência de formações florestais nos morros calcários.

· Pastagens naturais e artificiais e áreas agrícolas

· Vales desflorestados e presença de vegetação original nos morros

· Apesar da grande intervenção antrópica, na exploração biológica, das porções mais aplainadas, percebe-se uma atuação pouco expressiva da geomorfogênese, demonstrando relativa estabilidade no potencial ecológico. Nos morros isolados, a manutenção vegetal permite que desenvolva uma dinâmica natural equilibrada

· Dinâmica biostásica climácica sobre os morros vegetados e uma dinâmica biostásica degradada regressiva sobre os vales aplainados

4. Unidade

de

Pastagens

· Predominância da Formação Cerradinho (Grupo Corumbá), com ocorrências sobre o Grupo Cuiabá e partes da Formação Bocaina e Formação Aquidauana · Áreas de relevo aplainado a suave ondulado distribuídos pela quadrícula · Desenvolve-se predominantemente sobre a Terra Roxa Estruturada Similar eutrófica e Latossolo Vermelho-Escuro álico, com pequenas ocorrências de Brunizém Avermelhado e Glei Húmido eutrófico vértico e Rendzina   · Tropical Sub-úmido · Florestas e Cerrados (Áreas de Tensão Ecológica) · Pastagens naturais e artificiais

· Em alguns casos, há anualmente uma troca por agricultura

· O papel exercido pela vegetação de pastagens (natural ou artificial) assegura uma relativa estabilidade no potencial ecológico,

· Dinâmica biostásica degradada regressiva

5. Unidade

Agrícola

· Predominância absoluta sobre a Formação Cerradinho (Grupo Corumbá) · Áreas aplainadas em meio aos morros isolados em geral

· Área pediplanada de topografia muito suave na porção sul da quadrícula

· Desenvolve-se sobre a Terra Roxa Estruturada Similar eutrófica, Rendzina, Brunizém Avermelhado, Glei Húmico eutrófico vértico, solos estes de alto grau de fertilidade   · Tropical Sul-úmido · Florestas e pequenas porções de Cerrados (Áreas de Tensão Ecológica) · Agricultura intensiva

· Possíveis trocas por pastagens artificiais, em alguns casos

· A planura das porções desta unidade, bem como a implantação de curvas de nível nas áreas de maior declive, não promovem uma atuação insidiosa da geomorfogênese. Porém, nos períodos de transição entre culturas pode estar sujeita a uma atuação maior desta

· Dinâmica biostásica degradada regressiva

 


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